Foto: Faep
O dia começa às 7 horas na Penitenciária Industrial Marcelo Pinheiro – Unidade de Progressão (PIMP-UP), em Cascavel, na região Oeste do Paraná. Entre estudo e trabalho, a programação é regida por disciplina, horários e revezamentos. Parte das pessoas privadas de liberdade segue para os canteiros de trabalho, enquanto o restante vai para a sala de aula. Depois, há a troca. Ali, o tempo é estruturado para preparar o retorno à sociedade.
Já o dia 12 de fevereiro teve um significado diferente dentro da unidade. No lugar das tarefas habituais que compõem o cotidiano, a programação contou com a formatura de 46 detentos, que concluíram cursos de qualificação profissional ofertados dentro da penitenciária, como o ‘Planejamento na Olericultura’, ofertado pelo Sistema FAEP. A capacitação é resultado da parceria entre a entidade e o Departamento de Polícia Penal do Estado do Paraná (Deppen). Na ocasião, também foram entregues certificados do curso ‘Técnicas de Costura Industrial’, desenvolvido pelo Senai.
Mais do que um ato formal, a solenidade simbolizou a construção concreta de novas possibilidades. Os cursos, realizados no segundo semestre de 2025, integram as ações permanentes de reintegração social desenvolvidas pela Polícia Penal do Paraná e reforçam o compromisso com a educação e o trabalho como instrumentos de transformação.
“Ao promover os cursos, o Sistema FAEP reafirma o seu papel social e o compromisso com a qualificação profissional. Cada certificado entregue representa um recomeço real porque, quando oferecemos conhecimento, plantamos sementes de autonomia, inclusão produtiva e novas oportunidades para o futuro”, destaca o presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette.
“Cada certificado simboliza o esforço e a decisão de seguir por um novo caminho. A educação é um processo de transformação e de recomeço. Quando investimos em qualificação profissional, estamos investindo em pessoas e acreditando na capacidade de mudança de cada uma delas”, reforça o coordenador regional da Polícia Penal em Cascavel, Thiago Correia.
A parceria entre o Sistema FAEP e o Deppen começou no final de 2023, com instrutores da entidade ministrando cursos dentro das penitenciárias. A implementação dos cursos dentro de cada unidade de progressão consolida esse trabalho conjunto, que alia qualificação profissional, disciplina e construção de novas trajetórias.
Veja os cursos ofertados pelo Sistema FAEP
Formatura na Penitenciária Industrial Marcelo Pinheiro – Unidade de Progressão (PIMP-UP), em Cascavel
Rotina para a liberdade
Com mais de 45 mil metros quadrados e capacidade para até 450 pessoas, a unidade em Cascavel recebe pessoas privadas de liberdade próximas da progressão de regime e com bom comportamento. Inaugurada em 2002, a penitenciária conta com três alas de custódia, sendo três pessoas por cela. Durante a semana, trabalho e estudo ocupam os dias. Às quartas e sextas-feiras, há momentos de lazer, como o tradicional futebol na quadra de concreto, cercada por galerias e pavilhões. Aos domingos, as visitas reforçam os vínculos familiares e o contato com o mundo externo.
Reconhecida por ações e projetos que promovem a ressocialização, a unidade se tornou referência em gestão e resultados. O foco vai além da segurança: oferecer oportunidades reais para que cada pessoa construa um novo caminho.
O trabalho é realizado por meio de convênios com empresas. O pagamento ao detento corresponde a um salário-mínimo: 25% são destinados a despesas e 75% vão para uma poupança no nome da pessoa. Parte pode ser acessada pela família, enquanto o restante é liberado quando há o alvará de soltura.
“É uma missão que envolve toda a sociedade. A oportunidade está sendo estendida. É preciso agarrá-la”, destaca Correia.
Confira depoimentos de detentos que participaram dos cursos do Sistema FAEP
Planejando o recomeço
Há quatro anos na Unidade de Cascavel, S.C.J. já tinha interesse pela horta antes mesmo de iniciar o curso oferecido pelo Sistema FAEP. Para ele, a formação em Planejamento na Olericultura permitiu transformar a curiosidade em conhecimento técnico.
“Eu já gostava de mexer com horta. Agora aprendi as dosagens certas, o plantio, o manejo. Se tiver outros cursos, eu quero fazer também”, diz, lembrando que já concluiu capacitações em solda e elétrica.
Ele destaca que o aprendizado serve tanto para quem já tem experiência quanto para quem nunca teve contato com a terra. “Depois você pode fazer na sua casa, num sítio de algum parente ou até pensar em vender. Você leva o conhecimento”.
Natural de São Paulo e pai de sete filhos, S.C.J. divide o tempo entre a horta, os estudos, o trabalho interno e também participa de atividades externas, como serviços de conservação urbana.
Com a progressão se aproximando, ele planeja o recomeço. “Sempre trabalhei, tive carteira assinada, mexendo com obra e pintura. Quero voltar a trabalhar. O que eu aprendi vou levar para a vida”.
Descoberta profissional
Para J.J., recluso há um ano, o curso de olericultura foi uma descoberta. “Eu não tinha noção de como lidar com adubo, nem de quanto colocar por metro quadrado. Foi muito importante e produtivo. Dá para ter uma horta em casa depois.” Ele trabalhava em granja antes da prisão. Hoje, atua na horta da unidade.
Nova possibilidade
L.B., 40 anos, trabalha com construção civil e vê no aprendizado uma oportunidade concreta de ampliar possibilidades. Morador de Marechal Cândido Rondon há 15 anos, ele afirma que o curso trouxe uma nova perspectiva profissional.
“Eu mexo com construção civil. Mas, com essa aprendizagem que tivemos, dá até para pensar em fazer hortaliça para vender. É uma opção”. Ele diz que pretende aproveitar toda oportunidade de capacitação que surgir. “Quanto mais aprender, melhor.”
Dentro da unidade, já passou por diferentes atividades, como artesanato e costura industrial. Hoje auxilia na manutenção, ajudando em pinturas e em reparos estruturais. Com a saída prevista para outubro, L.B. tem planos definidos. “Tenho duas casas para construir e a minha também para terminar”.
Ele acredita que a qualificação faz diferença principalmente para quem não tinha profissão antes de entrar no sistema prisional. “Com os cursos, a pessoa já sai sabendo fazer alguma coisa”.
Recomeço na prática
Para I.C., 49 anos, a experiência fala por si. “Aprendi na prática. Foi bom.” Pai de dois filhos, ele acompanha de perto as remissões conquistadas por meio do estudo e da participação nos cursos. Cada certificado representa não apenas um avanço no calendário da pena, mas também um passo a mais na preparação para o retorno à sociedade.
Reencontro profissional
G.C., 50 anos, reencontrou na horta uma atividade que fazia parte de sua trajetória antes da prisão. Dentro da unidade, voltou a trabalhar com hortaliças e também atua na cozinha, preparando refeições para as equipes que desempenham atividades externas.
Com a saída prevista para este ano, ele projeta o futuro com esperança. “Terminei o fundamental aqui, estou no médio. O estudo ajuda muito.”
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