Foto: © Coletivo Apoena Audiovisual/Divulgação
Um grupo de indígenas ocupou, na madrugada deste sábado (21), o escritório do terminal operado pela multinacional Cargill no Porto de Santarém, no oeste do Pará. A ação faz parte de uma mobilização nacional contra o Decreto nº 12.600/2025, que incluiu as hidrovias dos rios Madeira, Tocantins e Tapajós no Programa Nacional de Desestatização (PND).
Segundo o Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns (Cita), comunidades indígenas do Pará e do Mato Grosso ligadas à entidade bloquearam o acesso ao terminal. Ao mesmo tempo, a cerca de 3,2 mil quilômetros dali, ambientalistas e integrantes de movimentos sociais protestaram em frente ao escritório central da Cargill, na Avenida Chucri Zaidan, na zona sul de São Paulo, interditando duas faixas da via.
Em nota, a Cargill classificou as duas ações como “violentas”. De acordo com a assessoria da empresa, há 30 dias manifestantes bloqueiam o acesso de caminhões ao terminal portuário de Santarém, apesar de decisão judicial determinando a desocupação da área.
A companhia informou ainda que, diante da iminente ocupação do terminal paraense, funcionários buscaram abrigo em um espaço fechado, onde permaneceram até serem retirados em segurança. Até o momento, não há registro de feridos, e a empresa apura possíveis danos a máquinas e equipamentos.
“Além disso, a companhia, que já tem ordem judicial favorável à desocupação, segue em contato com as autoridades para que as providências sejam tomadas de forma ordeira e segura”, acrescentou.
O terminal de Santarém é estratégico para o escoamento de grãos do Centro-Oeste pela chamada rota do Arco Norte, reduzindo distâncias até mercados internacionais e impactando diretamente a logística do agronegócio brasileiro.
Pelas redes sociais, o Cita afirmou que a ocupação do escritório ocorreu após mais de 30 dias de acampamento diante do terminal e foi motivada pela não revogação integral do Decreto nº 12.600. Segundo a entidade, os efeitos da medida “ameaçam a qualidade da água, a pesca, a soberania alimentar e a integridade da floresta”.
“Estamos aqui porque defendemos o direito de existir”, declarou o conselho, sustentando que, durante o período de bloqueio do pátio, liberou de forma pacífica e organizada as vias necessárias à operação de carga e descarga.
A entidade afirma que cobra explicações das autoridades federais sobre os critérios adotados para autorizar a concessão das hidrovias e questiona a realização de estudos de impacto social, ambiental e cultural.
“Permaneceremos mobilizados até que haja compromisso concreto com a revogação do decreto e com a garantia de consulta prévia, livre, informada e de boa-fé”, concluiu o Cita.
Em nota enviada à Agência Brasil, a Secretaria-Geral da Presidência informou acompanhar a mobilização e reiterou o compromisso de consultar previamente as comunidades afetadas por eventuais empreendimentos.
A pasta declarou que já estão garantidas as condições técnicas para instalação de um grupo de trabalho interministerial com participação de representantes indicados pelos povos indígenas da região, a fim de organizar os processos de consulta.
No último dia 6, diante da escalada de protestos, o governo federal anunciou a suspensão do processo de contratação de empresa para realizar a dragagem do Rio Tapajós. Segundo o Executivo, a medida foi um “gesto de negociação”, embora a dragagem não estivesse diretamente vinculada ao projeto de concessão da hidrovia.
O governo argumenta que a manutenção da navegabilidade é uma ação rotineira, necessária em períodos de estiagem, e sustenta que eventual transferência da gestão das hidrovias à iniciativa privada teria como objetivo garantir “escoamento mais seguro e ambientalmente protegido”.
O presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), deputado Pedro Lupion, criticou a ocupação do terminal.
Para ele, a invasão é “ato ilegal e incompatível com o Estado Democrático de Direito”. Segundo Lupion, a ocupação forçada de instalações privadas extrapola os limites do direito de manifestação e configura prática inadmissível, sobretudo quando busca impor paralisação coercitiva de atividades consideradas essenciais.
“O ordenamento jurídico brasileiro garante o direito de manifestação, mas não autoriza a invasão de propriedade nem a interrupção forçada do funcionamento de empresas. A estabilidade das relações institucionais, a segurança jurídica e a proteção da propriedade são pressupostos indispensáveis à convivência democrática”, afirmou.
O impasse em torno do Decreto nº 12.600 amplia a tensão entre governo, comunidades tradicionais e o setor produtivo. De um lado, lideranças indígenas exigem consulta prévia conforme a Convenção 169 da OIT e pedem a revogação da medida. De outro, representantes do agro defendem a previsibilidade regulatória e a continuidade das operações logísticas.
Enquanto não há definição sobre a revogação ou manutenção do decreto, o terminal de Santarém segue no centro de uma disputa que ultrapassa a questão portuária e expõe o conflito entre desenvolvimento logístico, segurança jurídica e direitos socioambientais na Amazônia.
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