A União Europeia (UE) e a Índia anunciaram na última semana o fechamento de um acordo histórico de livre comércio após quase duas décadas de negociações. O pacto, celebrado por líderes dos dois lados como um dos mais importantes de seu tipo — apelidado de “Mãe de todos os acordos” — deve ampliar o acesso recíproco a mercados que, juntos, somam cerca de 2 bilhões de consumidores e um terço do comércio global.
O que prevê o acordo
Segundo informações da Reuters, o acordo inclui redução ou eliminação de tarifas sobre a vasta maioria dos bens comercializados entre Índia e UE:
- Quase 97% dos produtos exportados pela UE para a Índia terão tarifas reduzidas ou eliminadas, com economias estimadas em até €4 bilhões por ano em custos aduaneiros para empresas europeias.
- A Índia, por sua vez, concordou em cortar tarifas em grande parte dos produtos importados da UE, incluindo mercadorias industriais, têxteis e joias, embora produtos agrícolas sensíveis como soja, açúcar, arroz e laticínios fiquem de fora do liberalização imediata das tarifas.
- Em um dos pontos mais comentados, tarifas sobre veículos importados serão reduzidas gradualmente, com impostos que hoje chegam a 110% no mercado indiano caindo para níveis próximos de 10% ao longo de vários anos, favorecendo montadoras europeias.
O pacto ainda precisa passar por etapas formais de aprovação, incluindo revisões legais e ratificações nos parlamentos da UE e da Índia, com expectativa de entrada em vigor até o início de 2027.
Por que o acordo é estratégico
A UE já trata este acordo como um passo fundamental para diversificar suas relações comerciais em um mundo marcado por tensões e tarifas crescentes, especialmente decorrentes de políticas protecionistas dos Estados Unidos e da dependência da Ásia.
Do lado indiano, o acesso facilitado a um mercado de alto poder aquisitivo é uma oportunidade para expandir exportações de produtos como têxteis, joias e manufaturados, e reforçar sua posição nas cadeias globais de valor.
O Brasil pode se beneficiar?
De forma direta, o acordo não inclui o Brasil — ele é exclusivamente entre a UE e a Índia. Porém, há razões para que o agronegócio e a indústria brasileira observem os desdobramentos com atenção:
- Contexto de Mercosul–UE:
Recentemente, Brasil e demais países do Mercosul (Argentina, Paraguai e Uruguai) concluíram um amplo acordo comercial com a União Europeia após mais de 25 anos de negociações, que ampliaria o acesso brasileiro ao mercado europeu.
A formalização desse acordo ampliaria o acesso de produtos brasileiros, incluindo commodities agrícolas e manufaturados, a um bloco consumidor de mais de 450 milhões de pessoas. - Pressão competitiva e oportunidades indiretas:
O acordo UE–Índia pode tornar a Índia mais competitiva em setores como têxteis, joias e manufaturados no mercado europeu. Isso pode significar maior concorrência para exportadores brasileiros em mercados terceiros, especialmente em países onde o Brasil também disputa participação.
Por outro lado, o fortalecimento de cadeias de produção entre UE e Índia pode criar oportunidades para cooperação trilateral em áreas como tecnologia agrícola, logística e serviços, especialmente se Brasil, UE e Índia avançarem em formatos de parcerias ampliadas no futuro. - Impactos no agronegócio brasileiro:
Embora o acordo exclua produtos agrícolas sensíveis de liberalização imediata em sua fase inicial, o aumento da renda e do consumo na Índia gerado pelo crescimento das trocas com a UE pode elevar a demanda por alimentos e insumos agrícolas globalmente — potencialmente beneficiando exportadores brasileiros.
Porém, mudanças estruturais nos mercados também podem influenciar fluxos de commodities e padrões de competitividade global, algo que exige atenção do setor produtivo brasileiro.
Conclusão
Enquanto o novo acordo entre União Europeia e Índia representa uma mudança importante no cenário do comércio global, o impacto direto para o Brasil ainda será indireto e depende da evolução de outras negociações, especialmente o acordo Mercosul–UE e possíveis parcerias trilaterais no futuro. O setor agropecuário, tradicional motor das exportações brasileiras, poderá se beneficiar tanto do crescimento do consumo global quanto enfrentar novos desafios competitivos em mercados estratégicos.
Por Agro7 – reportagem com base em fontes da Reuters
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