Foto: Freepik
O governo da França anunciou neste domingo (4) uma medida que pode impactar profundamente o comércio agrícola entre a União Europeia e o Mercosul. A partir de um decreto que deve ser publicado nos próximos dias, o país vai proibir a entrada em seu território de frutas importadas da América do Sul que contenham resíduos de cinco agrotóxicos proibidos na UE — mancozeb, glufosinate, tiofanato-metílico e carbendazim — em uma ação de defesa sanitária e econômica.
A decisão, confirmada em posts nas redes sociais pela ministra da Agricultura, Annie Genevard, e pelo primeiro-ministro Sébastien Lecornu, atinge, sobretudo, frutas tropicais e subtropicais como abacates, mangas, goiabas, frutas cítricas, uvas e maçãs, quando apresentarem resíduos dos defensivos vetados no bloco europeu. O anúncio também prevê a criação de uma brigada especializada para intensificar fiscalizações nas fronteiras e garantir o cumprimento das normas sanitárias francesas e comunitárias.
— “Não podemos aceitar que substâncias banidas aqui reapareçam indiretamente por meio das importações. É uma questão de bom senso,” afirmou Genevard.
A medida ocorre em um momento de forte pressão política interna na França. Produtores rurais franceses têm protestado contra o que consideram concorrência desleal de produtos agrícolas originados de países com regulamentações ambientais e sanitárias menos rígidas que as europeias — como os integrantes do Mercosul.
Embora a França seja apenas um dos mercados europeus, sua decisão pode inspirar medidas semelhantes em outros países da UE ou até incentivar uma regulamentação comunitária mais ampla. A ministra espera obter o aval da Comissão Europeia para estender a suspensão a todo o bloco nos próximos dias.
O anúncio francês coloca o Brasil — um dos maiores produtores agrícolas do Mercosul — no centro da discussão. O setor brasileiro de frutas vem registrando crescimento significativo nas exportações nos últimos anos. Dados de entidades setoriais mostram que o Brasil exportou mais de 1 milhão de toneladas de frutas frescas em 2024, gerando cerca de US$ 1,287 bilhão em receita, com frutas tropicais como mangas, melões, abacates e uvas entre os principais itens negociados mundialmente.
Em 2025, a tendência de expansão continuou: entre janeiro e junho, o Brasil exportou mais de 546 mil toneladas de frutas frescas e processadas, faturando cerca de US$ 583 milhões, com crescimento tanto em volume quanto em valor frente ao ano anterior.
Apesar disso, grande parte dos embarques brasileiros destinados à Europa está direcionada a mercados como Países Baixos, Reino Unido e Espanha, enquanto as exportações diretas para a França representam uma fração menor do total comercial entre Brasil e França, que em 2024 foi de cerca de US$ 3 bilhões em todos os produtos exportados.
Exportadores brasileiros seguem de perto os desdobramentos da medida francesa por duas razões principais:
O decreto formalizando a suspensão das importações deve ser publicado nos próximos dias pelo Ministério da Agricultura francês, e há expectativa de que a Comissão Europeia se posicione sobre a possibilidade de harmonizar a medida em nível comunitário. Produtores e exportadores brasileiros atentos às regulamentações de resíduos e certificações fitossanitárias poderão ter que reforçar ainda mais suas práticas de conformidade, caso desejem manter ou ampliar seus contratos com compradores europeus.
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